EU GOSTAVA DA CHUVA

 

Houve um tempo em que eu gostava da chuva. Eram dias em que não existia a obrigação de se acordar cedo, e jamais tinha ouvido a palavra “cartão de ponto”. Minha casa não tinha e nunca teve luxo, nem mesmo era tão confortável, mas era um lar onde eu me sentia seguro. Eu nunca estava só, meus amigos sempre tinham tempo para mim, eu tinha tempo para mim e também um moletom cinza com capuz. E neste tempo, como eu gostava da chuva.

Era um barulho uniforme, um pouco assustador quando os trovões balançavam as janelas, e um tanto fascinante os raios que cortavam o céu. Não podia jogar videogame, então jogávamos Banco Imobiliário até que a tormenta passasse. O café com leite era mais saboroso e ainda havia uma padaria na minha rua. Eu tinha medo do escuro e dividia o mundo entre o bem e mal, e tenho a vaga impressão de que, naquela época, eu sabia perdoar. Quando era pego de surpresa, no caminho de volta da escola, corria contra a enxurrada com os braços abertos gritando qualquer coisa que tivesse ouvido dos meus heróis da TV. Às vezes sinto o mesmo cheiro agradável de poeira molhada…

Hoje a chuva me incomoda, me deixa desmotivado e com pouca paciência. Talvez por que meu meio de transporte usual seja uma motocicleta. Mas sei que parte disso é pela preocupação irrevogável pelos meus semelhantes desprovidos de conforto. Também pelos muitos compromissos que se complicam quando a chuva cai.

Meus heróis agora tocam guitarra, usam chuteira, pintam e escrevem. Desisti de encontrar Atlântida, pois só agora pude ver que minha espada laser é um pedaço de cabo de vassoura. Já não há encanto nos programas matutinos da TV, o rei das bolinhas de gude agora dirige ônibus, e o dono do céu nunca mais fez uma pipa. A dona do primeiro beijo, dela só resta lembranças e a do segundo já tem dois filhos. Compreendo agora meios termos, meias palavras e turvas intenções. Conheci o verdadeiro e intenso amor, e a dor, a saudade, a vingança e também o dinheiro. E a chuva, essa já não faz mais meus olhos brilharem.

Sigo então a vida conflitante entre mudanças que chegaram sem eu pedir e transformaram o Piter Pam em Don Jean. Mas dou um sorriso contido na certeza de que não perdi a ternura, e mesmo sem inocência, ainda sei caminhar no céu. Mas a chuva, essa não inspira minha pobre literatura, mas por um bom tempo, eu gostei muito dela.

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7 comentários sobre “EU GOSTAVA DA CHUVA

  1. A perda da inocência, huh? Em tempos de chuva, quando criança, eu montava cabanas de cobertores para poder me abrigar. E eis que crescemos.

  2. ATLANTIDA!!!MEU AMIGO…AINDA ESTA NO MESMO LUGAR,APENAS PEGAMOS A CONDUCAO ERRADA…

  3. Que saudade desse tempo de chuva né amigo? Quando há chuva pelo menos ficamos quietos em casa, curtindo a família, namorado, amigos mais próximos. Sem ela fica tudo disperso! Cada um procura um programa, busca por uma distração diferente.´
    É com essa chuva que a gente encontra inspiração para escrever e para relembrar os momentos que já foram levados por ela…
    Linda demais sua crônica.
    Bjão

  4. Boas lembranças seu texto me trouxe. Não permita que seus olhos contemporaneos pare de enxergar a chuva como ela merece, esta, como sabes lá no fundo, não mudou, quem mudou foi você.

  5. Olá Piter!
    Vc não me conhece, mas sou amiga da Tarlene!!! Vc já devo ter ouvido falar de mim, pois sou a amiga que sempre falta nos encontros da turma do CEFET, rsrsrs…
    A Tarlene me apresentou seu blog e vim dizer-lhe que gostei muito da sua forma de escrever! Muito conciso, com descrições breves e muito sentimento. Não sei se é assim que vc vê seu texto, mas ele transmite bem o seu estágio de raciocínio. Gostei muito deste texto da chuva, muito poético e nostálgico, reflete mesmo nossa existência complexa e conflitante… nossa infância sonhadora!!!
    Espero que vc continue escrevendo, pois talento acredito que não te falta e se conseguir publique! É bom eternizar boas palavras!!!
    Sucesso com o blog!
    Abraços…

  6. Seu texto me levou em uma viajem muito reconfortante meu querido, tempos em que o mundo era um universo miterioso e cheio de aventuras.
    Ah!Só mais uma coisa, não sou a Tarlene á quem a moça do comentário acima se refére!
    Um abraço poeta e parabéns por seu texto bem elaborado.

    Tarlene Brito

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