DA VELHA E DA NOVA INFÂNCIA

Lembro-me claramente, um tanto nostálgico, dos dias da minha infância em que a literatura já me encantava. Meus primeiros contatos com a poesia foram através do “caderno de poesia e pensamentos” da minha tia, uma adolescente na época. Ela e suas amigas viviam desenhando flores, corações, deixando marcas de batom e fazendo margens cuidadosas e coloridas em cada página. Depois copiavam letras de música, poesias e pensamentos. Essa era a moda. O conteúdo era em si ruim na maior parte; versos rimados, frases feitas, superficiais ou sem sentido. Mas ainda sim me causava grande admiração. Eu passava horas lendo cada frase…

Do início da minha adolescência, me recordo dos “cadernos de pergunta e resposta” das amigas da escola. Eram cadernos onde todos respondiam as mesmas perguntas, e assim nos conhecíamos mais. Encontros eram marcados e namoros começavam depois das afinidades criadas pelas palavras ali escritas. Algo real e bem mais interessante que um perfil do atual Orkut, e claro, menos contraditório. As últimas páginas eram destinadas a mensagens para a dona do caderno, como os depoimentos virtuais de hoje, porém sem a banalidade usual.

As crianças e os adolescentes de hoje, seduzidas pela tecnologia consumista e modista, não mais partilham destas boas tradições. Possuem celulares, mas nunca escreveram uma carta. Participam de comunidades virtuais literárias, mas nunca leram um livro. Possuem centenas de amigos, mas ainda são tímidas e introvertidas e quase nunca conversam pessoalmente. E os resultados destes novos hábitos são degradantes: Possuem status, estresse e depressão, o que um dia era coisa de adulto. Estão deixando o romantismo morrer e perderam a capacidade de sonhar. E por tudo isso, lamentável e simplesmente, não sabem escrever.

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18 comentários sobre “DA VELHA E DA NOVA INFÂNCIA

  1. um dos melhores posts, Piter. O último parágrafo, perfeito.

    eu ter nascido ainda num bom tempo é fato que me alegra; eu já escrevi, e ainda escrevo, muitas cartas. Minha experiência com a literatura, como autor, foi realizada em cadernos e blocos de anotação. Isso que você disse, sobre pessoas que fazem parte de comunidades dedicadas à literatura mas não lêem, é a mais pura, triste e irônica verdade; tanto que, vê-se nos chamados tópicos de discussão, tais membros mal conseguem se referir corretamente à obra discutida. Uma lástima.

    abraço.

  2. Olá. Há tempos não visitava blogs; perdia-me em futilidades bem como layouts. Eu já sou bem velhinha e, por um incrível merecimento passei a minha infância sem conhecer o computador. Ainda após conhecê-lo – o que se deu na adolescência – houve por um bom tempo uma experiência saudável, uma troca com a informática e com a internet. Naquela época pouquíssimas pessoas tinham acesso e, por isso mesmo, cada internauta era uma pessoa “cotidiana”. Hoje as pessoas são ícones, nicks, enfim. Além do status que isso pode promover, há a questão da “segurança”, da discrição ( eu não espalho dados meus a toda a gente). Canso-me de ler “quiZer” nessa internet enquanto essa moçadinha permanece se auto-afirmando através de seus ingressos em comunidades de Orkut. Realmente, o último parágrafo é um tapa na cara. Excelente, como tudo o que você posta.

  3. Olá!!!

    Assunto muito bacana Piter.

    No nosso tempo rsrsrs,acho que tudo era melhor sabe,existia o caderno com poemas,poesias,frases que as pessoas deichavam de lembrança. Brincávamos de roba bandeira,brincadeiras saudáveis inofensivas,hoje as crianças estão mais ligadas as coisas superficiais como internet,joguinhos,é crianças novas conversando com adultos se fazendo de criança, é um absurdo o que hoje em dia acontece,acho que cada um deve fazer sua parte,por exemplo vc quando tiver seu filho,cria-lo como vc foi criado,mostrar as coisas bacanas que vc viveu. Acho que também tudo é a criação. Não que o computador não preste, mas as pessoas,principalmente crianças deve saber como utilizá-lo. Já percebi que tem Pais que acham bonito os filhos de 5 anos ficarem só no computador. Esse mundo digital é bacana mas precisa saber como trabalhar com ele.

    Bjs,
    Angélica

  4. Depois de se afastarem de si mesmas, foram para longe uns dos outros; tão sub-repticiamente, nem se nota a destruição – interna, externa – desse modelo.

    Mandei e recebi algumas cartas, sim: há vontade.

    ***

    É o olhar da Natalie Portman ali em cima?

  5. esses cadernos chamavam-se “cadernos de confidências”, preenchi vários! obrigada pelos comentários com relação à Lua, ela vai fazer falta… beijos

  6. Olá, Piter! Muito inteligente o seu post. Me identifiquei bastante com o que vc disse. Essas agendas, cadernos… Sempre gostei de tê-los (claro que durante a infância). Escrever sempre foi uma matéria optativa durante meus anos de escola e colegial. A música, como vc já deve saber, sempre esteve presente na minha rotina, talvez por isto, pelo fato de compôr, aprecio o romantismo da boa literatura.
    Infelizmente mandar um e-mail é mais cômodo do que escrever um bilhete ou uma carta. É triste perceber que amores se desfalecem por causa do mundo virtual. A realidade é outra, e somos incapazes de transformá-la.
    Um forte abraço.

  7. Gosto do teu blog a ponto de reler posts. Gosto de uma boa parte de quem lê e comenta aqui também. Gosto do fato de tudo virar “discussão”. É fascinante e dinâmico. Só não gosto do que somos no MSN mas a “culpa” é minha; sou fechada, calada e tenho o objetivo de ser invisível. Eu o removi da lista e vou ficar com a parte boa da troca. Bom domingo, se é que os domingos merecem ser bons.

  8. Nossa, voltei uns dez anos ou mais no tempo depois que li seu blog. Ficou otimo como sempre ne. Mas infelismente nao vemos mais essas coisas com as crianças e adolescentes q vivem pelo mundo virtual e nao têm o prezer q tivemos em nossa epoca, bjosss.

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