MUITO ESTRANHO

Agora em Belo Horizonte são exatamente meia noite e quarenta e sete minutos de sexta-feira, dia 31 de outubro de 2008. Não é novidade dizer que estou cansado. Cumpri minhas obrigações profissionais e acadêmicas nesses últimos quatros dias, sem falar que já estamos no fim do ano. E o que me deixa acordado até agora é que hoje, a menos que eu esteja equivocado, é feriado para os servidores públicos de Minas Gerais. Isso significa que poderei acordar tarde. Ah sim. Não sou um funcionário do estado, sou apenas um estagiário do setor de comunicação de um dos órgãos da agricultura, e felizmente esse recesso me assiste também.

Ontem, no início da noite, a leitura de um livro estava pouco proveitosa, mesmo regada a um bom café. Decidi então ir ao cinema para mudar um pouco a rotina. A propósito, este é um programa que adoro e que não o fazia há um bom tempo, por dois motivos: Atualmente ando muito ocupado com um projeto experimental de conclusão de curso, e por escassez de recursos financeiros.

Liguei várias vezes para uma amiga na tentativa de conseguir companhia, mesmo porque, os convites antecipados não costumam vingar. Ela não atendeu, nem retornou, o que me deixou intrigado. Tomei banho, vesti uma calça jeans, camisa branca de malha e tirei da caixa meu tênis All Star (branco), o qual, embora tenha comprado há mais de um ano, usei-o poucas vezes. Essa decisão me animou a ir de ônibus e deixar a moto em casa para não sujar meus calçados. Mesmo porque, o cinema fica no bairro vizinho e o ponto do coletivo é na calçada da minha casa. Fui então sozinho, como me é de costume.

Ao chegar no Shopping, tive que esperar por cerca de 15 minutos até que a sessão iniciasse. Fiquei na sala de espera, de frente para uma bela moça, muito charmosa, que não me aparentava ter mais de 18, com perfil de estudante: jeans, tênis All Star (preto), camiseta de malha amarela e uma mochila cinza. Ela estava de pernas cruzadas, segurando um caderno e escrevendo incessantemente. Trocamos alguns olhares, mas não passou disso, talvez por ambos acharem que o outro esperava por alguém. Em um momento, notei que ela viu o anel que uso na mão direita, o qual é motivo de risadas quando digo que o comprei por dez reais na mão de um hippie. Ele se assemelha muito a um anel de compromisso, que nunca usei um, embora tivesse vontade. Acredito que ao ver, ela perdeu totalmente o interesse. Ao contrário do que muitos dizem, ao menos para mim, “aliança” não dá sorte.

O filme: Optei por “Noites de Tormenta”, por gostar do gênero romance dramático e por ser o último dia de exibição. Um bom filme, não mais que isso. A melhor frase para mim: (dita de mãe para filha) “Há um tipo de amor que traz de volta a vontade de viver. Não se contente nunca com menos que isso”. Diane Lane continua bela ao 43 anos de idade. E aos 59, Richard Gere segue invejavelmente bonito e em boa forma. A sala estava vazia. Havia apenas seis pessoas além de mim. Estranhei não conseguir comer todo o balde de pipocas e ter que me esforçar para beber um litro de Coca-Cola,

Na hora de voltar, fui para o subsolo do shopping, onde fica a estação de ônibus. Vi muitos rostos conhecidos enquanto estive na fila. Ao embarcar, coloquei os fones no ouvido a fim de escutar alguma música. Antes do primeiro minuto de Evanescence – Bring me to life fui prontamente interrompido por uma menina desconhecida:
– Jean?
– Hum?
– Jean Piter, amigo da Sarah, que mora lá no bairro?
– Ah sim, sou eu. (surpreso)
– Te reconheci pelas fotos do Orkut.
– Já não tenho Orkut há um bom tempo.
– Vi no álbum da Sarah.
– Sério? Não sabia.
– Sim. E vi seu blog também, que ela me indicou, e lá também tem foto sua.
– Tem mesmo.
– Gosto do que você escreve.
– Obrigado.
– Você é escritor.
– Não, sou um quase jornalista.
– Vi que você é argentino. ¿Hablas español?
– Off corse. No. Yes. Excuse-me. Sí, yo hablo. Desculpe, mas não tenho praticado meu espanhol. E estou sintonizado na minha prova de inglês amanhã. Você fala espanhol?
– Não.
– E inglês?
– Também não. Só brasileiro.
– Brasileiro… ah sim.
– Meu ponto o próximo.
– Ok, prazer. Seu nome?
– Nalana. Até mais.
– Até. (eu hein???)

Ao chegar em casa, liguei o computador a fim de escrever algo. Encontrei minha amiga no MSN, aquela que não atendeu as ligações. Conversamos bastante. Ela me explicou os motivos, pra lá complicados, falamos de “fantasmas”, corações partidos, brincamos de “verdade ou conseqüência”, e bem… ela não está bem. Nos veremos sábado na aula de inglês. Vou dormir, pois tudo anda muito estanho e minha capacidade de entendimento está muita reduzida no momento.

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*Escrevi esta longa crônica pra mostrar que minha vida não é nada especial a ponto de merecer que eu escreva sobre ela sempre. Por isso prefiro meus mundos inventados, construídos com minhas meias palavras. Sei, sou bem complicado, literalmente uma equação de Don Quixote e Tony Montana. Mas definitivamente, não sou o que escrevo.

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8 comentários sobre “MUITO ESTRANHO

  1. o filme pode até ser apenas bom, mas ganhou um espação no blog! bela fotografia..
    as pessoas sempre acham que o que a gente escreve precisa ser necessariamente sobre nós. ai ai
    bjbjbj jean

  2. ah, nossa vida sempre parece mais interessante quando eternizada por palavras,
    e menos interessante quando somos nós mesmos quem as escrevemos…
    talvez porque estejamos cansados de vivê-la todos os dias nos mesmos moldes,
    nas mesmas roupas com as marcas de nossos corpos, presos em nossa personalidade.
    mas é tudo válido; o telefonema não atendido, o papo pelos olhos com a menina da sala de espera, o filme, o papo furado no msn, a maluca que teve a ousadia de materializar uma conversa que imaginou por muitas vezes enquanto via suas fotos ou seus textos…é sempre tudo tão válido, intenso, poético…
    esses espaço é aconchegante, queria poder vir aqui com mais frequência, um ótimo fim de semana, sopros de luz
    beijos

  3. oi jean, será que vc não é mesmo o que escreve? penso que mesmo a ficção, a fantasia, são partes importantes daquilo que somos… apesar da aparente banalidade do dia a dia, o olhar que você lança sobre o cotidiano, a capacidade de recortá-lo para recriá-lo, tudo isso faz parte daquilo que vc é 🙂 e que legal ser reconhecido por causa do blog e do orkut heheheh são os 15 min de fama, como já previsa andy warhol 🙂 bjão querido!

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